Item - Entrevista com Aluno do MOBRAL - Ireno José Pequeno

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Entrevista com Aluno do MOBRAL - Ireno José Pequeno

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Sonoro; Arquivo MP3 (.mp3); Tempo: 00:25:36.

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(1968 - 1985)

Biographical history

O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi oficializado pelo decreto nº 62.455, de 22 de março de 1968. Embora oficialmente estabelecido naquele ano, o movimento teve sua criação em 15 de dezembro de 1967, Dia Internacional da Alfabetização, por meio da Lei nº 5.379 durante o governo de Costa e Silva. Sua implementação, no entanto, só ocorreu em 1970, quando Emílio Garrastazu Médici assumiu a presidência, e Jarbas Passarinho era o Ministro da Educação.

Vinculado ao Ministério da Educação e Cultura, o MOBRAL tinha como missão implementar o Plano de Alfabetização Funcional e a Educação Continuada para Adolescentes e Adultos, entre outros projetos que visavam diversificar as abordagens de ensino e inclusão social. Tinha como foco a alfabetização de pessoas com 15 anos ou mais que não soubessem ler e escrever. O principal objetivo era promover a alfabetização funcional e a continuidade da educação por meio de cursos específicos, com duração prevista de nove meses.

O MOBRAL surgiu como um programa do governo militar para ir contra o Programa Nacional de Alfabetização do governo de João Goulart, lançado em janeiro de 1964, coordenado por Paulo Freire, apesar de usar métodos de ensino parecidos. O programa enfrentou diversos desafios ao longo dos anos, tanto em termos de estrutura quanto de custos. O financiamento do MOBRAL dependia de recursos da União, do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, incentivos fiscais ( até 2% de desconto no do Imposto de Renda) e uma parcela da Loteria Esportiva, o que representava um alto custo para o governo.

Em 1975, o programa foi alvo de uma investigação por meio de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado Federal. A investigação foi desencadeada após denúncias sobre a inclusão indevida de crianças de 9 a 14 anos no programa, o que gerou críticas à sua execução e resultou na versão "MOBRALZINHO", que visava atender essa faixa etária. Além disso, as críticas à falta de resultados efetivos e a questão do elevado custo de manutenção começaram a afetar a imagem do programa.
Em meio a esses desafios, o MOBRAL foi se modificando ao longo do tempo, criando novos programas e tentando se adaptar às necessidades de uma população maior. Porém, a pressão política e os custos elevados se tornaram insustentáveis.

O MOBRAL foi extinto pelo Decreto nº 92.374 de 6 de fevereiro de 1985, no governo do José Sarney e foi criada a Fundação EDUCAR, que visava substitui o MOBRAL. Por fim, a Fundação Educar foi extinta em 1990. O fim do MOBRAL também foi motivado pela insatisfação com os resultados do programa, que não conseguiu reduzir de forma significativa os índices de analfabetismo, e pela crescente necessidade de reformular as estratégias de educação de adultos e jovens no Brasil.

Archival history

O acervo documental do Arquivo Histórico do Inep inicialmente é organizado por séries documentais dispostas dentro da Seção de Fundo Histórico. Tal classificação é derivada de um quadro de arranjo proposto nos anos 1980 pela arquivista Astrea Moraes e Castro como parte do processo de reorganização dos Arquivos do Ministério da Educação - MEC em Brasília. A proposta da arquivista sofreu adaptações até chegar no modelo atual o qual obedece a uma sistemática que envolve ordenação por setor de origem, tipologia documental e assunto.

O acervo possui data-limite inicial do período de 1937, quando houve a criação oficial do instituto por meio da Lei nº 378 de 13 de janeiro de 1937, até 1997, ano em que o Inep tornou-se oficialmente autarquia federal por meio da Lei nº 9.448/97. Atualmente é coordenado pela Coordenação de Disseminação de Informação - CGDI. As séries compõem-se majoritariamente por documentos textuais, iconográficos e cartográficos.

Desde sua concepção o Inep tem sido o orientador nas ações relativas à Educação Brasileira, função que intrinsecamente se reflete no arquivo, que abriga um conteúdo documental complexo e é fonte importante para pesquisadores de todo o país. Disseminar os documentos do acervo histórico descritos no AtoM faz parte de um objetivo institucional de difusão de sua produção à sociedade. Esta iniciativa afirma o seu compromisso de ser para a comunidade em geral o observatório da educação brasileira em âmbito nacional e internacional.

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Entrevista com o aluno Ireno José Pequeno, trabalhador de obra e aluno do MOBRAL.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Comprei para uma unidade, compreendeu e faz o trabalho. Na toda função, não é não?

Entrevistador - Raul:
Eu posso te dizer mais uma coisa, rapá? Pra mim, quem é fraco e quem é forte, porque esse negócio de fraco e forte eu não acredito não, acho que é a sociedade mesmo, é o tipo de lugar mesmo que a gente diz que vê quem é fraco e quem é forte. Eu acho que é todo mundo forte, né? Meu modo de ver o pedreiro é tão importante quanto o engenheiro. Acontece que um teve a oportunidade de estudar e o outro não teve.

Entrevistado - Ireno José Pequeno
Certo, certo.

Entrevistador - Raul:
É tão importante quanto.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Mas muitas pessoas realmente é.. de mil pessoas encontrar um, dois que reconhecem. Até nesse nível, compreendeu? Que mil pessoas se exaltam compreendeu? e não dá valor apenas de um simples trabalhador igual nós, somos batalhadores do Brasil, não é isso? Porque se não fossemos nós, quer dizer que, os pobre, batalhador, quer dizer que o Brasil não ia, compreendeu? o que ninguém ia fazer, porque nós faz, entendeu? Quer dizer que, por acaso, todo mundo está reunido, o Brasil cresce cada degrau e cada dia, não é mesmo? Ele fica sempre cada vez mais moderno. Espero assim, certo? Meu modo de pensar.

Entrevistador - Raul:
Mas é isso. Então vamos fazer o seguinte, porque ele botou o gravador pra tocar pra ver se botava isso aqui, agora acontece, se ficar desse jeito, eu vou chegar nessa altura aqui.
Vamos lá, companheiro. É.. eu queria que você inicialmente... eu vou ver lá se está gravando um minutinho.
Eu queria que você inicialmente dissesse seu nome aí pra mim, falasse um pouquinho da tua vida onde você nasceu etc etc. Encosta aí pra ficar mais tranquilo. Não. Não precisa ligar não. Senta aqui negão. Pode deixar que eu seguro aí, não se preocupa não, se quiser segurar, segura.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer, um pouco da minha vida por um exemplo, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
É seu nome, como é que é seu nome?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Meu nome realmente é Ireno José Pequeno.

Entrevistador - Raul:
Fala assim, Ireno, fala de novo, só pra mais claro.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Ireno José Pequeno, não é isso? Meu nome. No gravador que a pessoa fala, né? Grava na hora.

Entrevistador - Raul:
Mas e me diga uma coisa, você nasceu aonde, Ireno?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Eu nasci em Canavieira, estado da Bahia. Quer dizer que meus pais é Cândido José Pequeno e Antônia Isabel da Conceição.

Entrevistador - Raul:
Me diga uma coisa, Ireno. Canavieira fica onde? Olha que eu conheço bem a Bahia e eu não conheço Canavieira.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que realmente eu não posso explicar qual são as regiões.

Entrevistador - Raul:
Mas fica perto de que cidade assim?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não posso explicar, se é perto de Jacobina, se é perto de Salvador, capital da Bahia. Mas quero declarar porque sai de lá garotinho, realmente por intermédio dos meus pais que me levaram até São Paulo. E a gente é baiano de nascença, mas é mineiro de coração, porque fui criado em Minas, certo?

Entrevistador - Raul:
E você saiu lá garotinho junto com sua família?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Junto com minha família. Quer dizer que idade mínima, uns seis anos. E fui criado em Minas, cidade de Pirapora, município de Belo Horizonte, e antes de voltar a Minas, estive em São Paulo, realmente trabalho em Bauru, Miracema, Mirante.

Entrevistador - Raul:
Trabalhou sempre como o que?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que

Entrevistador - Raul:
Sempre em construção?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, quer dizer que naquela época o pai trabalhava em lavouras, certo? Trabalhava em chacrinha, lavouras, trabalhando com tomate, batatinhas, lavouras de roça. Como é que é né?

Entrevistador - Raul:
E você ganhava salário ou ganhava na meia?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, naquela época não ganhava nada, porque eu era criança. Agora o papai, quer dizer que realmente trabalhava, né?

Entrevistador - Raul:
E como ele ganhava salário, tinha a terra dele?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Trabalhava a base na meia.

Entrevistador - Raul:
Na meia?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Trabalhava, era meieiro do japonês, no sítio japonês. Agora eu realmente era criança, não conto vantagens no São Paulo, certo? Quer dizer que pelas história e história assim, a pessoa também, às vezes morou, realmente conheceu um pouquinho da cidade. Quando eu vou falar assim, eu conheço São Paulo, porque São Paulo é um lugar amplo, é um lugar assim extenso, compreendeu? É um lugar que quem nasceu em São Paulo nasceu e criou em São Paulo. Ele não pode falar assim: “eu conheço São Paulo”. Então quando a pessoa for no local de São Paulo, fala assim, não, eu moro em São Paulo, não é isso? Essa é mais básica. E de São Paulo eu vim a Brasília realmente, e há um momento trabalho aqui, em Brasília há quatro anos. Acho Brasília um lugar bonito, um lugar de capacidade, onde tem todos os órgãos públicos do governo, quer dizer que ministério, sabe? e etc. Daí pra frente. Inclusive trabalho nessa firma há cinco meses. Sou apenas funcionário da firma. E daí por diante, se a gente for contar a história da vida da gente, sabe, é muita coisa, porque você conta o dia todo e realmente não termina de contar tudo, porque a vida da pessoa é uma coisa longa, não? Então, não é tanto que eu não, Raul, eu não gosto de pegar um microfone para mim contar uma história, porque a gente às vezes não tem nível para conversar bem, conversar assim uma coisa de muito apoio, porque só conversa assim. Agora espero que escreve quem quiser e quem souber, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
Claro.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
E se o senhor é um rapaz inteligente, um rapaz assim de nível de alta capacidade, então isso não vai me levar a mal, não é mesmo? Nem o senhor como o outro também, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
Claro.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
E a gente não vai passar apenas como bobinho não, vai pensar assim como aventureiro, né? Como aventureiro. Porque o cara que não aprendeu realmente não teve quem deu assim um ensino de competência. Quer dizer que não vai falar coisas assim, né? Coisa que pertence mesmo assim, alguma coisa que está acontecendo com a gente.

Entrevistador - Raul:
Eu posso te dizer uma coisa?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Pode dizer.

Entrevistador - Raul:
É o seguinte, eu acho que aprender é uma coisa que tem um significado muito amplo. Se tu não precisa aprender só nos livros.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Certo.

Entrevistador - Raul:
E digo mais, eu acho que tanto eu tenho coisa pra te ensinar, quanto você tem coisa pra me ensinar. É como eu estava dizendo lá na sala.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Certo.

Entrevistador - Raul:
Pra mim você é tão importante quanto o engenheiro e devia ganhar tanto quanto ele. Porque sem você ele não seria nada e sem ele você não seria nada. Então acho que todos são importantes.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Certo.

Entrevistador - Raul:
Mas acontece que às vezes um fica valorizado e o outro não, esse é que é o erro.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Certo. Então nesse momento, o nosso papo vai crescer realmente, que você me deu apenas uma chance para que possamos falar mais, certo? Então, inclusive, eu falo sempre com meus colegas do trabalho, os meninos, nós temos essa aula aqui, essa escolinha, isso para nós foi assim, uma coisa de uma determinada maneira, que foi mesmo uma bondade que nós ganhamos aqui nesse trabalho, que realmente, quase da firma consultora, não dá chance do operário estudar. E a pessoa muitas vezes pode falar: "Não, não vou estudar porque vou pegar um serão e duas horas ou dois trabalhos”. Qual esse dinheiro desse trabalho dele não vai resolver o dia de amanhã, não é isso? Então a gente que bem pensasse, estudava, batalhava, dava valor para o treinamento do professor, não é isso? Que está dando aula para a gente, lecionando. E também o engenheiro que deu essa chance para o aluno vir até o trabalho, não é mesmo? Porque a pessoa, menino, Logo nós estamos falando em modo de viver, tudo pertence a um modo de viver, porque olha, eu cheguei aqui, estava com dois meses, eu fiz o teste, trabalho nessas máquinas, máquina sabe fazer tijolo para a firma?

Entrevistador - Raul:
Você aí na obra você tem que função?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que eu estou apenas exercendo uma função de um carregado de maquinário, entendeu? Máquina de fazer tijolo, entende, máquina de fazer tijolo para a firma. Então eu cheguei e comecei a trabalhar com boa vontade e sempre falando com o engenheiro para ele me classificar, para ele ter paciência com a gente, entender o meu trabalho, entender o meu modo de falar, entender o meu pessoal, a minha boa vontade, até realmente foi classificado, certo? Hoje, graças a Deus. Porque eu, menino, não tenho capacidade de chegar perto do senhor, estourar com o senhor e falar de paciência, não, eu vou, converso num consultor devagarzinho, até você me entende, porque a gente, ninguém nasceu sabendo. E conversando é que se entende, não é isso? Se eu sou um rapaz empregado e necessito do trabalho para ganhar o meu dinheiro que é sagrado, então eu vou conversando. Quer dizer que não no meu pequeno nível, até ele pode me entender como não entendeu, não e me classificou. Quer dizer que ficou eu muito além e satisfeito, não passei como puxa saco, não passei apenas como uma vez uma pessoa que elogio, mas passei com uma pessoa bacana pelo meu ideal, não é isso?

Entrevistador - Raul:
Como é teu ideal?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Meu ideal, viu Gisboa? É trabalhar, é economizar, é ‘persuir’ (possuir). É ser uma pessoa de nível na vida. Porque sem batalha ninguém consegue nada, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
Me diz uma coisa, você tem quantos anos?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que eu tenho realmente 28 anos.

Entrevistador - Raul:
E você tem família aqui? Ou está todo mundo na Bahia?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, só tenho uma irmã em Brasília. Mas o meu pessoal, papai e mamãe e os irmãos, eles residem em Minas, cidade de Pirapora.

Entrevistador - Raul:
Você não é casado não, né?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, solteiro.

Entrevistador - Raul:
E como é que tá a vida aí? Como é que tá o salário aí de você? O salário do pessoal, dos companheiros de que trabalham?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer, meu amigo, salário. Salário é um problema que a pessoa não pode nem explicar, porque cada qual, dentro dessa obra, tem um nível a trabalhar. Eu, por exemplo, sou tarefeiro da firma, ganho realmente por semana uma base de 800 cruzeiros a 1.100 contos, certo? E os outros, meus colegas, meus vizinhos de trabalho, podem ganhar uma média de 400 cruzeiros por mês, por semana, 450 por semana a 500. Agora eu sou tarefeiro, que esforço pela parte do trabalho, ganha realmente uma base de 800 cruzeiros ou a mil e cem contos por mês.

Entrevistador - Raul:
Por semana, você diz, né?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, por semana, quer dizer.

Entrevistador - Raul:
E a maior parte ganha o que você ganha, a maior parte ganha o que você falou?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não. A maior parte ganha essa base de 400 e pouco por semana.

Entrevistador - Raul:
E isso está dando para viver, o teu e o deles?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Meu amigo, eu quero dizer que dá para viver. Não dá para viver, mas que a pessoa que é de pouco salário não vê vegeta, mas diz assim a palavra, que enquanto a em vida é a sorte, não é mesmo? A pessoa, qualquer tanto que a pessoa ganha, a pessoa vai viver, não é? Quer dizer que o que eu posso fazer? Se eu não tenho condições suficientes para ganhar muito, esse público que eu ganho, eu ganho assim, com boa vontade e tudo bem, né?

Entrevistador - Raul:
E me diga uma coisa, e para o pessoal que tem família, como é que está a situação? pessoal não comenta, não diz nada?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, muitas vezes eles queixam que é pouco e não dá para viver, mas a pessoa, quando não tem outro modo de viver, não tem outro destino na vida, quer dizer que tem que conformar com um pouco que Deus dá, porque se fosse no algo da gente, todo mundo ganhava bastante, todo mundo teria nível, mas com meu nível é para aqueles que tem sorte, sabe, assim a chance para receber um alto nível do que da nível que ganhamos dele. Agora a gente que não podemos ganhar muito, ganhamos esse pouquinho e ficamos realmente satisfeitos, ainda agradecemos a preferência de quem nos empregou para ganhar esse pouco todo dia.

Entrevistador - Raul:
E me diga uma coisa companheiro, você acha que as pessoas que ganham mais, que tem mais nível, é por sorte, é porque o Deus quis ou é porque a coisa está errada?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, meu amigo por quê. Eles ganham mais porque teve quem desse um pouco de leitura e eles interessou, batalhou e chegou até a função que está.

Entrevistador - Raul:
Me diga uma coisa, você acha que com essa leitura que vocês estão aprendendo dá para subir de vida? Dá para ganhar mais?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Dá. Porque realmente ninguém nasceu sabendo, não é mesmo? A pessoa batalhando, se esforçando pessoalmente, amanhã pode fazer um curso especiais, sair do MOBRAL para uma outra escola e se classificar e passar em uma pessoa, para uma pessoa inteligente, compreendeu? Essa é a função de qualquer formado. Porque realmente a pessoa que é formada não nasceu sabendo. Quer dizer que eu não estou especial mal e nem querendo discutir um assunto, sabe? Assim, obrigativo, mas essas palavras, eu estou dizendo, é porque a pessoa que sabe ler e escrever realmente bem e tem nível, é porque ela achou que ajudasse ele, ele também teve boa vontade de pessoas próprias.

Entrevistador - Raul:
Me diga uma coisa, companheiro, você acha que o operário que aprende a ler, ele vai ter mais chance realmente, quer dizer, ele vai encontrar lugar? Vai ter lugar para ele?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, não vai ter lugar, sabe por quê? Porque todo lugar é lugar, entende?

Entrevistador - Raul:
Mas vai ter lugar melhor que eu digo?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, não vai ter lugar melhor, porque todo lugar são iguais, certo? Agora que não são iguais às pessoas. Porque se eu fosse iguais com o senhor, por exemplo, quer dizer que eu não era um batalhador do trabalho pesado, certo? Não ia me aquecer, meu suor e trabalhar dia de noite para manter o meu salário que é ganho. E como o senhor é uma pessoa que tem nível, tem estudo, certo? É uma parte suficiente que possa trabalhar no trabalho que o senhor trabalha nessa função, quer dizer que tem mais nível do que eu, porque se eu não soubesse nem aqui, nem quando eu não seria o trabalho que o senhor trabalha, entende? Isso eu quero repetir.

Entrevistador - Raul:
Me diz uma coisa, quanto tempo está essa aula aí?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que eu não posso informar quantos tempos, porque eu apenas sou novata no trabalho da firma. Mas realmente deve ter uma base de uns 5 meses, né? Não vamos estourar, não.

Entrevistador - Raul:
Você tá estudando a quanto tempo?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
A base de uns 20 dias a 30 dias de estudo.

Entrevistador - Raul:
Você já aprendeu que?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Aprendi assim, ler, escrever meu nome, sabe? Isso que eu aprendi, escrever, ler alguma coisa, certo? E analisar alguma benfeitura que veio na escola, aprender, aprender a conversar com a humanidade. tratar meus amigos muito bem, tratar o engenheiro da obra muito bem, e dar valor a parte do estudo.

Entrevistador - Raul:
Eles ensinam a tratar todo mundo bem, o engenheiro bem. O que a professora ensina aí?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Ela ensina muita coisa, ensina a pessoa a se cumprimentar, trabalhar, pagar realmente, contar a história do Brasil. Dizer que a leitura é muito bom, que a pessoa deve batalhar, deve se esforçar e ser uma pessoa assim inspirada, ser uma pessoa assim informidade, pessoa assim triunfante, pessoas de praça, pessoas que merecem assim ‘alojeio’ (elogio) de qualquer pessoa inteligente, a qual não o professor, como a gente também que aprendeu com ela, não é mesmo, e pode, mas isso é a função de outro professor seguinte, certo?

Entrevistador - Raul:
Me diga uma coisa, e o pessoal aí, por que que eles dizem que vêm estudar, os teus outros colegas que estão aí na sala?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, eles falam que vêm estudar porque acham que a vida do trabalho de servente todo o tempo, sabe? Não dá para viver. Então eles vêm estudar, porque eles mais logo podem, realmente são as pessoas, porque botam a bacia numa loja, trabalham em um barcão, ser motorista, só sabe que, para todos os efeitos, a pessoa que não sabe ler e nem escrever, coitadinho deles. Eu não posso ser motorista, eu não posso ser um contador, ele não pode ser um despachante, não posso ser um comerciante. Então a leitura é uma coisa muito boa. É uma coisa que pertence àquele que sabe que o Brasil é o Brasil e lê a lei, não é mesmo? Porque a pessoa sem leitura espera que não é ninguém, realmente nada na vida.

Entrevistador - Raul:
E me diga uma coisa, companheiro, e o resto do pessoal aí, está aprendendo ou não está aprendendo?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que a gente não pode informar que está aprendendo, porque cada qual tem seu esforço.

Entrevistador - Raul:
Quer dizer que não sente assim se o pessoal está sabendo ler, está sabendo assinar nome, escrever?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quer dizer que a gente analisando, olhando assim para os amiguinhos, parece que estão aprendendo, mas sei de mim que estou aprendendo, ou pouquinho ou muito, mas a boa vontade está comigo, certo? Apenas que eu já sabia um pouco de leitura, mas com a boa vontade da professora dessa obra, estou aquecendo cada vez mais sobre a leitura, entende?

Entrevistador - Raul:
Você já tinha estudado alguma coisa antes?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Já tinha estudado, estudei na cidade de Buritis, município de Pirapora, Minas Gerais.

Entrevistador - Raul:
Até que anos você estudou?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Até o terceiro ano, meus estudos foram muito fraquinhos, porque papai realmente é pobre, não tem condições, sabe, de dar uma leitura para os filhos, porque pessoas fracas, batalhador, lavourista, eu não tenho condições, sabe como é que era no exterior, na de Minas. Então, plenamente eu tenho apenas terceiro ano, bem escrito.

Entrevistador - Raul:
E o pessoal aí, frequenta muitas aulas ou não?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Frequenta muitas aulas.

Entrevistador - Raul:
Não falta muito não. Mora todo mundo na obra?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Quase todos na obra. Nem todos dá valor ou trabalho na escola, mas muitos dá valor.

Entrevistador - Raul:
Mas o pessoal que estuda mora todos na obra?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Que eu conheço, todos moram na obra.

Entrevistador - Raul:
Você mora na obra também?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Eu trabalho e moro na obra todo tempo, quer dizer que não falo você morar fixo, mas estou em alojamento, quer dizer que praticamente falo que estou morando, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
Você está alojamento daquele ali?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, é um alojamento ao lado do edifício grande aqui.

Entrevistador - Raul:
Me diz uma coisa, é bom alojamento?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
É um alojamento bom, quer dizer que é um lugarzinho limpo, muito caprichadinho, um alojamento novo, certo, e o mestre da obra da mínima atenção, o engenheiro também gosta, porque as coisas fiquem sempre limpinhas, a qual a pessoa não pode adoecer, às vezes não pode também receber algum bichinho que morre, companheiro para não dar certo problema no operário, não é mesmo?

Entrevistador - Raul:
E a comida, como é que é? E a boa?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Olha, meu amigo, a comida é ótima a comida. Eu apenas não vou ‘defamar’ (difamar) a comida, porque lugar que trabalha muitas pessoas, se manifestam porção de pessoas em cantina, Cantineiro não tem condição de fazer uma comida especial, porque o cozido está muito caro e uma comida muito caprichosa vai ficar realmente cara mesmo, certo? Então eles fazem a comida em alcance que se possa fazer, quer dizer que não seja especial, mas dá a pessoa alimentar e não faz mal.

Entrevistador - Raul:
Quem que paga a comida é a companhia, a firma?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Bom, quem paga a comida é o operário e vem descontado integral no pagamento.

Entrevistador - Raul:
Quem organiza a cantina é a firma?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
É a firma.

Entrevistador - Raul:
Quanto é que vocês pagam por refeição?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Pagamos realmente 12 cruzeiros.

Entrevistador - Raul:
12 cruzeiros por refeição.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Por refeição.

Entrevistador - Raul:
E o pessoal que ganha menos paga isso também?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Paga tudo igual.

Entrevistador - Raul:
E me diz uma coisa, e quanto ao material utilizado, o material que a professora usa? Qual o material que a professora usa, o que você acha dele?

Palestrante 1
Quer dizer que material, quer dizer que os livros, os cartazes, as coisas assim. Realmente, a joia, quer dizer que para uma obra do primeiro ano, conforme estudamos, são coisas boas, são uns livros muito bem zeladinhos e tal, porque a pessoa não vai trazer um livro, sabe, assim, um livro muito difícil de ler, porque as pessoas não tem nível, não sabe ler aquilo, quer dizer que faz assim, é quando tinha do primeiro ano e tal, não é isso?

Entrevistador - Raul:
Mas eu estava te perguntando, você acha que o pessoal entende os cartazes, as coisas que ela põe?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, realmente uns entendem, sabe, e outros não.

Entrevistador - Raul:
Por que que eles não entendem?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Porque as pessoas, viu ô Raul, que ele não teve um ensino completo, ele não teve assim um ‘estúdio’ (estudo), ele não teve assim uma inteligência, compreendeu? Então eu não posso seguir em frente, entende? Por exemplo, eu entendo realmente alguma coisa, certo? Porque eu já estudei, já li pessoalmente, sei o que está acontecendo com alguma coisa, certo? no assunto de leitura, escola, trabalho, sabe, o Brasil e eles entram. Mas muitas pessoas, coitadas, são criadas na roça, como eu te falei, não tem condições, então não entende, certo, não entende.

Entrevistador - Raul:
Não entende os cartazes do material?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não entende, certo?

Entrevistador - Raul:
Você não acha que não dava para fazer um tipo de cartaz que eles entendessem, assim, se fosse mais ligado com a vida deles, com o mundo deles?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Então é difícil, né, a pessoa tem fazer analisar é uma coisa muito difícil, compreendeu? Quer dizer que isso aí é difícil de entender, porque realmente eu não sou uma pessoa assim, muito parada, sabe? Não sou uma pessoa assim, muito fraquinho em leituras. Para eu fazer um orçamento, fazer um desenho, me deu uma coisa moderna, eu acho difícil, dificilmente, compreendeu essas pessoas que nasceram na roça, se criou nas roças, coitadas, não tem saída.

Entrevistador - Raul:
E os cartazes que a professora mostra? Que cartaz do foguete, da comida, essas coisas assim, o pessoal que que fala?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Eles ficam realmente admirados, né? Uns ficam admirados, outros não sabem o que é, e daí pra frente.

Entrevistador - Raul:
O que que eles não sabem o que é? Dos cartazes? O foguete nego não sabia o que era?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Então, não sabe não, né? Muitas pessoas, muitas pessoas você mostra uma coisa, você mostra em um gravador. Você mostra um gravador, você mostra assim, uma televisão, sabe? Então você ainda sabe desse mundo, viu menino, o Brasil é moderno, mas tem muito brasileiro que ainda está por fora, certo? De toda a gíria, entendeu? Então não tem condições. As vezes ainda me mostra uma coisa fácil, eu chego assim e falo professora, isso, isso, isso e isso.

Entrevistador - Raul:
Então quer dizer que parte do Brasil é que é moderno, não é todo o Brasil.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
É uma parte, não é meu amigo? Porque se fosse moderno seria uma boa, entendeu? Olha, porque realmente, você viu, Raul, quando eu converso com meu superior do trabalho, com o engenheiro, então ele fica assim, parado nas minhas falas, fala, poxa, esse rapaz é batalhador, um cara convivente, sabe, um rapaz assim parceiro, compreendeu? Tudo bem, não é mesmo? A qual outra pessoa pior do que eu, mas não sabe falar com o engenheiro, também pede para falar com ele. Quer dizer que se o camarada tivesse amido como eu aprendi, então todo mundo teria condições de chegar lá e falar, não com o moço, não?

Entrevistador - Raul:
Me diz uma coisa, tem muito acidente na obra?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, não tem acidentes, muito difícil. Quando não tem acidentes pequenos, coisinhas sempre que não perturbam ninguém.

Entrevistador - Raul:
Me diga uma outra coisa aí, como é que é o... É isso aí, você acha que então alguns cartazes o pessoal não entende porque está muito distante da vida dele?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Realmente.

Entrevistador - Raul:
Quais foram os cartazes aí? Você não se lembra que a professora mostrou aqui e eles não entenderam?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Porque pela parte de cartazes, viu, meu amigo? Ela mostrou algum cartaz assim sobre a obra, sobre o Brasil, sabe, até de meu alcance. Foi pouquinho cartaz. Agora, o momento que esse cursinho que ela está fazendo, eu lembro ela fazer assim as poesias sobre Brasília, compreendeu? Uns cartazes sobre Brasília, quer dizer que... Hoje foi a primeira vez que caiu, sabe, nosso quadro. E o tema anterior é só mapa do Brasil, essas coisinhas sempre.

Entrevistador - Raul:
Não apareceu assim o foguete?

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Não, que eu vi isso não.

Entrevistador - Raul:
Tá legal, é só isso então, muito obrigado.

Entrevistado - Ireno José Pequeno:
Então Raul, no mais, como terminei minha sobre palavra, quero que você não me leve a mal, se não falei bem, você sabe que eu não posso falar mesmo, certo? Reconheço realmente que sou um pequeno em Boa Vista compreendeu? Mas, então em ordem das meia hora, e um dia posso mesmo chegar até lá, não, e você pode me entender.

Entrevistador - Raul:
Para chegar lá, muita coisa tem que mudar.

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